O cinema (e Jurassic Park) antes da internet

O cinema (e Jurassic Park) antes da internet

Como escolher um filme para assistir antes da era da internet?

Quem frequentou o cinema na década de 90 (ou antes) vai se lembrar disso. Nessa época, antes da internet, tínhamos poucas pistas para decidir qual filme assistir no cinema. O primeiro fator era o boca-a-boca. Alguém assistiu ao filme e te recomendava. Comerciais de TV e reportagens da imprensa também ajudavam bastante, por isso o caderno cultural dos jornais era lido com muita atenção. Revistas especializadas, como a saudosa SET também eram fonte de informação, mas pelo custo elas tinham uma distribuição bem mais restrita.

Mas chegando no cinema, o que havia de disponível? Basicamente o cartaz do filme. Nós olhávamos para eles e decidíamos, pela qualidade da arte mesmo, se o filme nos interessava ou não. Se seria bom ou não. Bem no estilo “julgar o livro pela capa”. Por isso havia tanto esforço na elaboração das artes de cartazes naquela época. Vários dos painéis de cinema anteriores aos anos 2000 são verdadeiras obras-primas de desenhistas.

Outro detalhe que nos ajudavam eram os “cartões de lobby”. Eram pequenos impressos que a sala de cinema colocava ao lado do cartaz, que mostravam um pouco mais do filme. Cada cartão tinha um quadro do filme, para nos dar uma ideia melhor do encontraríamos quando a sessão começasse. Normalmente havia só dois ou três desses cartões ao lado do painel principal do filme, o que era um tanto frustrante, pois queríamos ver mais. Nós que vivemos a infância nessa época nos lembramos de como viajávamos nessas poucas imagens, tentando imaginar como seriam os filmes a partir de pistas tão vagas. Veja abaixo alguns desses cartões de lobby da franquia Jurassic, eles foram produzidos até Jurassic Park ///. Tome fôlego porque são 32 imagens.

Os mais cuidadosos gostavam de descobrir mais detalhes sobre os filmes, para eles as salas de cinema imprimiam um folder com a lista de filmes que era exibida pela rede. Lá constavam o elenco da produção, resumo do enredo, diretor, horários de exibição e até a classificação que a crítica especializada dava para o filme. Esses impressos eram em preto-e-branco, de baixo custo, e ficavam à disposição gratuitamente para quem quisesse levar para casa. Estamos sempre em busca de um destes exemplares que contenha a exibição de Jurassic Park ou uma de suas sequências, mas ainda não encontramos. Parece que ninguém se deu ao trabalho de guardar. Veja abaixo um exemplo de um desses folderes, este de 1973 do Grupo Severiano Ribeiro.

Para ajudar com os horários das sessões, as maiores cidades tinham um serviço que era uma espécie de disque-cinema. Você telefonava para um determinado número e era atendido por uma gravação que simplesmente falava todos os horários de sessões de todos os cinemas inscritos no serviço. Funcionava bem, naquela época essas cidades não tinham tantas salas de cinema quanto hoje. Bastava ter paciência para que a gravação chegasse no ponto de dizer os horários do cinema que você pretendia ir.

Mas e o trailer? Ah, o trailer era uma loteria. Sem Youtube ou outros serviços de streaming, você teria que ter a sorte de entrar na sessão certa para ver o trailer do filme pelo qual se interessa. Então, os outros elementos que mostramos acima tinham um peso muito maior na divulgação dos filmes. Praticamente ninguém assistia ao trailer de um filme antes de vê-lo no cinema. Eles passaram a ter melhor distribuição nos VHS de locadoras de vídeo. Ali sim nós assistíamos aos trailers e os usávamos para escolher os próximos filmes a alugar. Mas eram filmes que já tinham saído de cartaz dos cinemas. Aliás, levava em média dois (DOIS!) anos para um filme que saiu de cartaz chegar nas locadoras.

Segundo muitos, hoje há o excesso de publicidade das superproduções e toneladas de material publicitário são despejadas na internet antes da estreia dos filmes. Várias pessoas pararam de assistir aos trailers porque eles trazem spoilers demais sobre o filme. Antigamente os trailers também traziam esses spoilers, mas como nós os assistíamos apenas uma vez, no próprio cinema, e só veríamos o filme um mês depois, a memória se esvaia e o filme surgia com suas surpresas. Mas hoje não. Fãs de franquias como Jurassic Park (olha nós ai), Jornada nas Estrelas e Guerra nas estrelas, por exemplo, baixam o trailer em seus computadores e o analisam quadro-a-quadro, procurando por cada detalhe e pista que o trailer possa oferecer. Aí surgem teorias e longos debates na rede sobre qual direção os filmes seguirão… isso também contribui para acabar com a sensação de novidade ao ver o filme na data de estreia. Antigamente essa sensação era o mais gostoso de tudo.

Dá saudades dessa época, não é verdade?

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