LES GIGANTES – Nossa dor pelo Museu Nacional

Les Gigantes Logo 2

O Jurassic Park 4.4 fala um pouco sobre o drama de perder nosso acervo tão precioso.

Nós fãs da Jurassic, naturalmente, somos grandes admiradores de dinossauros, o que nos dá um enorme interesse pela paleontologia. Essa ciência nos fascina e isso produz o hábito de pesquisar sobre o tema, comprar publicações em bancas de revista e livrarias e visitar exposições de fósseis. Por isso, nos sentimos muito atraídos pelos museus.

A situação dos museus brasileiros nunca foi boa. Todos sabemos as dificuldades que eles enfrentam, basta olhar as exposições. Aliás, nem é necessário ir ao museu, basta olhar seus sites na internet. A falta de investimento é patente e percebemos que nosso acervo – científico e cultural – está sempre prestes a sofrer danos graves. E, infelizmente, vimos mais uma vez isso acontecer.

Na noite de domingo, 2 de setembro de 2018, por motivos ainda desconhecidos, um incêndio de graves proporções destruiu parte importante do acervo do Museu Nacional da UFRJ, localizado no Palácio da Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro – não confundir com o Museu Nacional de Brasília. Esse prédio já é importante por si só, pois é obra magnífica de arquitetura colonial e foi a residência do imperador português e de dois imperadores brasileiros. Mas, além das paredes, havia ali dentro um acervo único.

Museu Nacional da UFRJ

Quase todos os museus brasileiros são públicos, e é flagrante a incapacidade que o Estado demonstra de cuidar do nosso patrimônio. Ainda não se sabe qual a extensão dos danos, é cedo demais para dizer. Mas aparentemente, no incêndio perdemos não apenas fósseis, mas coleções de importantes de documentos históricos europeus, peças de arte da Antiguidade grega, obras e múmias egípcias de valor incalculável. Perdemos obras de Pablo Picasso, Joan Miró, Henri Matisse, René Magritte, Salvador Dalí e dos brasileiros Cândido Portinari e Di Cavalcanti. Isso é uma enorme vergonha para nós, nossa imagem fica abalada diante da comunidade científica internacional. Perdemos o fóssil da Luzia, provavelmente o ser humano mais antigo das Américas.

Dentre os fósseis de dinossauros e pterossauros, os restos das seguintes espécies podem ter sido destruídas:

  • Oxalaia
  • Santanaraptor
  • Maxakalisaurus
  • Caupedactylus
  • Brasileodactylus
  • Anhanguera
  • Tupuxuara
  • Tapejara
  • Cearadactylus
  • Gondwanatitan
  • Tupandactylus
  • Uberabatitan
  • Aymberedactylus
  • Esqueletos e ovos de pterossauros ainda não descritos

Um importantíssimo conjunto de fósseis coletados pelo saudoso Paula Couto foi destruído, são de mamíferos primitivos, incluindo o mais antigo tatu que se conhece. Já recebemos a informação que o fóssil do Nyctosaurus lamegoi, o primeiro pterossauro descrito no Brasil, estava fora do prédio e encontra-se intacto.

Conforme veiculado na internet, além dos documentos brasileiros, como o documento original da Lei Áurea e as obras artísticas de nosso país, essas preciosidades também estavam no prédio:

  • Pergaminho datado do século XI com manuscritos em grego sobre os quatro Evangelhos, o exemplar mais antigo da Biblioteca Nacional e da América Latina.
  • A Bíblia de Mogúncia, de 1462, primeira obra impressa a conter informações como data, lugar de impressão e os nomes dos impressores, os alemães Johann Fust e Peter Schoffer, ex-sócios de Gutemberg.
  • A crônica de Nuremberg, de 1493, considerado o livro mais ilustrado do século XV, com mapas xilogravados tidos como os mais antigos em livro impresso.
  • Bíblia Poliglota de Antuérpia, de 1569, Obra monumental do mais renomado impressor do século XVI: Cristóvão Plantin.
  • A primeira edição de “Os Lusíadas”, de 1572.
  • A primeira edição da “Arte da gramática da língua portuguesa”, escrita pelo Padre José de Anchieta em 1595.
  • O “Rerum per octennium… Brasilia”, de Baerle (1647), com 55 pranchas a cores desenhadas por Frans Post.
  • Exemplar completo da famosa Encyclopédie Française, uma das obras de referência para a Revolução Francesa.
  • O primeiro jornal impresso do mundo, datado de 1601.
  • Exemplar único e considerado raríssimo do livro publicado em 1605 pelo autor Hrabanus Maurus, que criou o caça-palavras em forma de poesia visual.

Outras perdas também nos entristeceram. Veja mais detalhes aqui, aqui e aqui.

Nossa tristeza é enorme! Vimos muitas manifestações de pesar – e revolta – na internet. Foi frequente que pessoas mencionassem o incêndio como a “a morte de um parente querido”. Muitos, emocionados com as imagens das labaredas, derramaram lágrimas sinceras de dor. E as buscas por peças históricas e científicas nos escombros estão ocorrendo neste momento.

Museu Nacional da UFRJ

Como imaginado, o meteorito Bendegó – o maior meteorito já encontrado no Brasil – resistiu às chamas. O planejamento da reconstrução está se iniciando. Apesar da perda gigantesca, sabemos que o museu será reconstruído em alguns anos – seja lá quantos forem necessários. E o tempo se encarregará de novas descobertas científicas para ocuparem o depósito e a exposição do prédio reconstruído.

Por fim, transcrevemos abaixo a declaração de um dos frequentadores do museu, um dos fundadores do Jurassic Park 4.4 que, emocionado, usou uma rede social para deixar sua homenagem ao Palácio da Quinta da Boa Vista. Que mais pessoas sejam sempre inspiradas por este e outros museus, sempre.

Contarei um episódio da minha vida que ninguém conhece.

Em 1999 eu era estudante da 3ª série do Ensino Médio e aos 17 anos recém completados precisava definir minha carreira. A vontade de trabalhar com paleontologia remontava à infância, mas a necessidade de escolher uma profissão “prática” era sempre uma ideia que retornava. Medicina Veterinária parecia uma boa opção por eu ter prática na lida com gado bovino e equino e pelas aulas de anatomia que tive sorte de ter naquele mesmo ano. Publicidade também estava no jogo, por simples vocação.

Em meados deste ano o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista inaugurou a primeira grande exposição com dinossauros do Brasil. Eu não pensei duas vezes. Durante as férias de junho, tomei um ônibus e fui sozinho para o Rio de Janeiro apenas para ver os fósseis.

Não é necessário descrever as sensações e o impacto que os exemplares expostos tiveram em mim. Eu tinha que ir além. Procurei algum paleontólogo responsável pela exposição que estivesse presente. Me levaram até a Deise.

Contei para ela minha vontade de estudar paleontologia e me tornar profissional da área. Conversamos alguns minutos sobre minha insegurança em abraçar uma profissão de pesquisador científico no Brasil. É uma profissão viável? Ela foi amável, gentil e me tranquilizou. Sanou minhas dúvidas e com uma atenção singular demonstrou que eu seria bem vindo na área. Tomou um papel e caneta e os apoiou em uma estante próxima ao meteorito Bendegó.

“Venha participar do próximo congresso brasileiro de Paleontologia, será em Crato, no Ceará” disse, escrevendo informações sobre o congresso no papel, com letras ligeiras e bem desenhadas.

“Existe uma forma de eu já começar agora a estudar fósseis, para adquirir prática na profissão?” perguntei.

“Temos um setor do museu que pode te receber”, disse acrescentando o telefone do local. “Procure os professores Kellner e Sérgio, talvez eles tenham algum estágio e você pode começar logo, mesmo que apenas como voluntário”, dessa vez teve que usar o verso do papel para os nomes, por falta de espaço.

Conversamos mais alguns instantes e ao me despedir pedi que incluísse também seu nome. Dessa vez ela escreveu apoiando o papel na palma da mão esquerda, o que afetou sua caligrafia. Qualquer um a perdoaria.

“Eu quero poder te contatar no futuro”, concluí, a cumprimentando.

Eu saí do saguão decidido a prestar vestibular para geologia e seguir carreira em paleontologia. Ora, ser aprovado no vestibular é tão difícil, se eu superar esse obstáculo que pelo menos seja para o que realmente gosto de fazer. Alguns meses depois eu já estava manipulando fósseis em um laboratório.

Eu não fui ao congresso no Ceará.

Nunca entrei em contato com o Kellner ou o Sergio. Na ocasião eles me pareciam importantes demais para atender um estudante como eu.

Hoje a recordação da atenção da Deise me comove. Eu nunca mais a vi.

Esse encontro aconteceu há 19 anos. Já tenho 18 anos de atuação na área, 6 como estudante e 12 como profissional. Sempre que abro meu perfil em redes sociais vejo que recebi várias mensagens de crianças e jovens que querem ser paleontólogos e me procuram cheios de dúvidas, como eu tive. Eu não deixo uma mensagem sequer sem resposta. Dou a elas toda a atenção. Mas essa atenção não é minha. É da Deise. A atenção dela só passa por mim, para chegar em mais pessoas. Eu sou apenas um fio condutor. Passo adiante.

Durante todo esse tempo carrego em minha carteira o papel que recebi. Sempre o tive comigo. Amuleto? Superstição? Não. Somente gosto de tê-lo perto.

Porque foi ali que eu recebi a bênção para ser paleontólogo.

No saguão de entrada do Museu Nacional.

Ao lado do Bendegó.

Henrique Zimmermann Tomassi

Facebook Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *