Como criar uma lenda

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Em comemoração aos 20 anos do lançamento de O Mundo Perdido – Jurassic Park, trazemos imagens raras e fizemos uma matéria exclusiva sobre o processo de conversão dos Mercedes ML, os veículos que vimos no segundo filme da franquia.

O Mundo Perdido estreou nos cinemas brasileiros há exatos 20 anos, em 20 de junho de 1997. Nele surgiu mais um veículo icônico para a história do cinema. Segundo a fabricante, o Mercedes Classe M foi desenvolvido para conquistar estradas e caminhos difíceis. Mas será que isso inclui enfrentar dinossauros? O modelo teve um papel de protagonismo em O Mundo Perdido, e isso foi possível devido ao trabalho do estúdio de desenho da Mercedes na Califórnia, que equipou o carro para esta grande aventura.

Buscando apresentar o Classe M para o público, a fabricante assinou um contrato com a Universal Studios e a Amblim Entertainment para fornecer os carros do filme. Foi o primeiro filme da franquia em que a Mercedes forneceu os veículos. O modelo em questão, no entanto, precisava de modificações, do acréscimo de todo equipamento que se espera que um grupo de cientistas leve para a selva em uma expedição a um mundo perdido com dinossauros vivos. O trabalho ficou a cargo o Estúdio de Desenho Avançado localizado em Irvine, Califórnia, há cerca de uma hora de distância dos grandes estúdios de Hollywood.

Gerhard Steinle, que lidera o estúdio, pediu que os desenhistas interessados no projeto fizessem rascunhos de artes com sugestões para a conversão. Essa foi a fase de idealização em que os artistas tiveram liberdade de criar sob apenas uma condição: abaixo de todo o equipamento e camuflagem o formato básico Classe M ainda deveria ser reconhecível.

Ao mesmo tempo, Steven Spielberg e sua equipe da Industrial Light and Magic também colocaram em papel suas próprias ideias acerca da aparência dos Mercedes. Se lembra do filme Hatari! (1962), com o astro do faroeste John Wayne? O título significa “Perigo!” em Swahili, e o filme mostra como ocorre a captura de animais selvagens para o envio a zoológicos e circos (isso parece familiar?). Muito deste filme foi usado como referência no primeiro e no segundo Jurassic, e isso merece até uma matéria a parte. Mas o fato é que toda a cena de aprisionamento dos dinossauros em O Mundo Perdido, e até os assentos ejetáveis que vemos nos veículos da InGen, foram copiados de Hatari!.

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Reunião entre a Amblim e a Mercedes. Da esquerda para a direita: da Amblin, Warren Manser (ilustrador da produção) e Jim Teegarden (diretor de arte) e da Mercedes, Melonee Ranzinger, André Frey e Gerhard Steinle.

Após a análise dos primeiros rascunhos, Steinle apontou André Frey como responsável pela conversão dos Classe M. Ele declarou:

“Eu me inspirei um pouco em Hatari!, também. Mas ao mesmo tempo eu pensei em Jurassic Park, no qual os Ford Explorers indicavam uma jornada mais divertida. Os Classe M deveriam ser mais utilitários.”

Com um pacote cheio de rascunhos, Steinle foi à Amblim e os espalhou no chão, em um estúdio de som, para serem avaliados por Steven Spielberg. Como os desenhistas e a equipe de produção haviam criado desenhos muito radicais, a forma do Mercedes havia se perdido. O trabalho de criação deveria continuar.

 

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Arte da segunda fase de idealização, na qual o desenho foi simplificado para que as linhas do Classe M continuassem visíveis

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Como o esboço acima era tímido demais, surgiu a versão pesada desta arte. Frey afirmou que esta versão era “militar e brutal demais”

Mais encontros geraram mais ideias. Quando a equipe de produção visitou o estúdio em Irvine e viu os desenhos do Swatch SMART feito na Califórnia, chegaram a cogitar que os protagonistas poderiam usar esses carros pequenos, para se esconderem dos antagonistas, equipados com carros de grande porte. No entanto, rapidamente consideraram que isso seria fugir demais da realidade. Foi então que decidiram usar versões disfarçadas do Mercedes Unimog, os grandalhões 4×4 da montadora, para os veículos da InGen.

Mercedes Unimog Mundo Perdido

Exemplo de Mercedes Unimog usado em O Mundo Perdido.

Frey continuou desenvolvendo mais rascunhos e finalmente chegou a três desenhos que todos gostaram. Se os protagonistas necessitavam de um laboratório ambulante, eles precisariam de um carro fechado (o carro-laboratório), um aberto de onde se elevaria um abrigo para a observação dos dinossauros (o carro-observatório) e um terceiro conversível, com apenas uma gaiola ao redor das portas e janelas. Para eles era importante notar que este último não seria colocado em produção e venda pela Mercedes. Frey também teve que adicionar acessórios externos, como quebra-matos, galões de combustível e grades nas janelas laterais. Steinle disse:

“Não era tanto um trabalho de desenho, mas de decoração. Mas foi divertido.”

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Se aproximando do desenho final, o desenho de Frey mostra o quebra-mato incomum, o snorkel e as laterais com perfurações.

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Arte de John Bell em que vemos como a capota se transforma em um abrigo para observar dinossauros (equivalente à gaiola de tubarão).

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Arte conceitual do carro-laboratório.

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Arte conceitual do carro-observatório, com a gaiola aberta.

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Arte conceitual do veículo conversível, vista lateral.Warren Manser mclass35tm

Arte conceitual do veículo conversível, vista oblíqua.

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Arte conceitual do veículo conversível após destruição pelo casal de Tyrannosaurus rex, vista oblíqua.

As artes conceituais deveriam ser convertidas em veículos reais, funcionais. Para essa tarefa, a Mercedes recorreu à Metalcrafters, uma empresa especializada na personalização de veículos. Como o modelo era um lançamento, os carros enviados para a oficina estavam entre os primeiros a sair da linha de produção. Foram necessários apenas três meses de trabalho para converter os Classe M usados no filme.

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Carros do filme no final do processo de conversão, na oficina da Metalcrafter em Fountain Valley, California

Houve um único imprevisto de última hora. A Mercedes não conseguia decidir como seria o padrão de camuflagem dos carros. Apenas 48 horas antes do início das filmagens, resolveram mudar a pintura. Mas as áreas de pintura da Metalcrafters estavam irremediavelmente ocupadas. Foi então que o Centro de Preparação de Veículos da própria Mercedes, há meia hora de distância de Irvine, veio em socorro e abriu seu pátio de pintura para os preparadores dos carros do filme. Eles removeram a pintura prévia e Frey pessoalmente manejou a pistola para criar o novo padrão.

Havia duas cópias de cada um dos três carros feitos para o filme. E essas cópias deveriam ser idênticas. Por quase 48 horas ininterruptas Frey e a equipe do Centro de Preparação trabalharam na remoção da pintura anterior e na criação da nova camuflagem. Sobre essa etapa, Frey disse:

“Foi uma equipe formidável. Foi muito bacana trabalhar com os veículos de verdade e tínhamos um grupo motivado ao nosso redor… essa foi a melhor parte.”

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A versão final do Classe M apresentado à Amblim para aprovação. Aqui podemos ver como a tenda abre para cima, formando uma gaiola de observação. Pena que não foi usada no filme.

Na hora certa, os carros de O Mundo Perdido estavam prontos, em frente às câmeras, enquanto o pintor de prontidão Tony Leonardi dava os últimos retoques.

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A versão conversível foi criada especificamente para o filme e nunca foi planejada para entrar em produção pela Mercedes.

Curiosamente, naquela tomada alta na oficina do Eddie podemos ver, no início do filme, três os modelos criados para o filme. O da esquerda é o modelo fechado, que seria usado como laboratório móvel, ele é o único que possui proteções pretas nas portas e um painel sobre o capô. O central é o modelo conversível usado por Eddie para trafegar na ilha e sustentar o cabo de aço do Refúgio Alto. E o da direita, quase não visível, é o modelo com a gaiola-observatório, que foi usado na ilha por Sarah Harding.

tres na oficina

Única cena do filme em que podemos ver os três modelos de Classe M criados pela equipe de produção.

Obviamente, como apenas três personagens foram para a Sorna, eles foram forçados a deixar um dos veículos nos EUA, pela simples falta de mais um motorista. O “carro-laboratório” foi o deixado para trás. Na cena de chegada à ilha podemos ver que apenas dois Mercedes acompanham o trailer na ferry boat.

dois foram para a ilha

O Mercedes conversível (à esquerda) e o carro-observatório (à direita) são os únicos que foram levados para a ilha.

O carro-observatório é o que foi usado por Sarah (Julianne Moore) para levar o bebê T. rex para o trailer. E logo em seguida ele é arremessado pelo nervoso casal que veio em busca de sua cria.

Mercedes da Sarah

Carro-observatório dirigido por Sarah Harding durante o filme.

Um fato curioso é que, apesar do testemunho de Frey de que os pares de carros de cada modelo eram idênticos, na verdade há uma diferença. O carro conversível que aparece trafegando na primeira cena em que estamos dentro da Sorna possui quatro faróis de milha – dois redondos no centro e dois retangulares nas extremidades. Nas cenas seguintes, sempre que o conversível aparece novamente, ele mostra os redondos nas extremidades e os retangulares no centro. A não ser que entre uma cena outra Eddie Carr (Richard Schiff) tenha trocado os faróis de posição – o que é altamente improvável – isso é um simples erro na construção do par de carros conversíveis.

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Aqui podemos ver a única cena com a participação do modelo conversível com faróis redondos no centro e retangulares nas extremidades…

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…porque nesta cena e em todas as outras…

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…o conversível usado tinha os faróis de milha redondos nas extremidades e os retangulares no centro.

As filmagens foram de vento em popa. Mas o trabalho de Gerhard Steinle e do Estúdio Avançado de Desenho, no entanto, ainda não estava concluído. Quando a exibição do filme acontecesse, ainda havia o trabalho de promover e dar publicidade aos carros usados em O Mundo Perdido. Então, seis meses antes da estreia do filme, as empresas fabricantes de brinquedos (Hasbro e Tyco) estavam prontas para produzir miniaturas dos carros da produção, a logo mesa de Steinle estava cheia destes pequenos modelos que precisavam de seus comentários!

A marca de veículos usou de todas as ferramentas para aproveitar o sucesso do filme para dar publicidade ao seu carro. Jeff Goldblum, a estrela do filme, recebeu um ML 320 de prêmio da Mercedes-Benz como resultado do acordo de divulgação. No lançamento em VHS do Brasil e Reino Unido não havia trailers antes do filme, mas apenas um anúncio do Mercedes-Benz SLK. No VHS estadunidense e canadense o comercial era diferente, mostrando imagens históricas da marca. Veja as duas versões abaixo:

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Carro-laboratório, com seu painel sobre o capô e as proteções nas portas.

Caso queira se aprofundar na história fascinante de idealização e fabricação do Mercedes Classe M, recomendamos o livro M-Class – The Complete Story Behind the All-New Sport-Utility Vehicle, de John Lamm. Além de todo o histórico do veículo, o livro tem um capítulo inteiro dedicado ao processo de criação dos carros usados em O Mundo Perdido.

E assim se fez um dos ícones mais marcantes da franquia Jurassic Park. Os fãs recriam com certa facilidade os Jeep Wranglers do primeiro filme. Os Ford Explorers são mais raros devido à dificuldade de copiar a pintura. Mas os Mercedes ML são os veículos mais difíceis de se replicar e, portanto, os mais raros entre os fãs. Uma coisa é fato. Todos nós imaginamos o desenho do filme sempre que vemos um Classe M circulando nas ruas, não é mesmo?

Um comentário sobre “Como criar uma lenda

  1. Nossa gostei muito, esse site aqui manda muito bem.
    a equipe esta de parabens, recomendo.
    vou compartilhar no facebook.

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